domingo, 30 de novembro de 2008

O Sorriso Disfarçado

Ian acorda. Olha para o relógio e vê que é cedo demais.

- Porra, são 3 horas da tarde... ainda? Merda.

A noite foi devastadora. Impiedosa. Cruel. Talvez ele pense que jamais poderá achar seu coração novamente. Pior, parece ter levado um soco no queixo, daqueles que chacoalham o cérebro e que faz perder os sentidos. Desmaiado, em coma. Coração e mente em pedaços, muito bom. Que mais falta? Ah sim, a alma. Mas Ian julga que não possui alma há um bom tempo. Claro, depois daquela noite em que transou com a namorada do melhor amigo, ele se considera um filho da puta nato. Mas não é só isso, a bondade que residia em seu coração há tempos está perdida.

- Quê? Que merda é essa de bondade? Bondade é a...

É, isso mesmo, assim ele pensa. Pobre Ian, que foi que lhe fizeram nos tortuosos caminhos da vida? Melhor, o que foi que fez a si mesmo? Não é a sombra do que foi um dia. Mas claro, não podemos fugir. O álcool ingerido na noite passada ainda queima seu estômago. O nariz ainda dói, os pulmões fervilham. As olheiras não param de aumentar, até parece que levou dois socos bem dados. É... Onde está sua garota? Mais uma de suas paixões descartáveis. Claro, sempre assim: 'me apaixono por você agora, mas amanhã nem me lembro do seu nome.' É óbvio, ele se apaixona por qualquer mulher que julgue interessante e lhe dê um belo sorriso. Mas que tenha um belo par de coxas, seios e um rosto lindo. Beleza interior é coisa de fracassado, diz ele. Cadê sua garota, cara? Levou outro pé na bunda? Porque é sempre assim, qdo passa do primeiro pro segundo estágio a coisa muda, e muito. Ian deixa de ser um indiferente para ser um idiota babão. Otário. Não sabe dosar sentimentos, se mata aos poucos.

- Não fode! O coração é meu! Eu colo essa porra com a cola que eu quiser... nem que seja cola de sapateiro inalada!

Ele jamais entenderá. Pobre alma. Pobre diabo. Sabe muito bem da vida como ela é, mas se nega a aceitá-la. Prefere ficar trancado no quarto, deitado. Ouve seus cantores e cantoras de fossa preferidos, ou como ele mesmo diz: sad boys with guitars, sad girls with pianos. Chega a ser deprimente. Frustrante. Broxante. Mas aí vem mais um dia, ele levanta da cama, se olha no espelho. Vê estampada em seu rosto a vergonha, a falta de coragem. Mas de quê adiantaria ter coragem se lhe faltam forças? No café da manhã toma um gole de uisque, diz que é pra rebater a ressaca. Café da manhã às 4 da tarde. Muito bom. Ainda decide o que vai fazer. Ligar o computador, ler um livro... No fim de tudo acaba acendendo um cigarro. Tem que tomar um banho, urgente. Exala o cheiro da derrota da noite anterior, a derrota de sempre, que o acompanha desde o dia de seu nascimento. Mas tanto faz, ele já a aceita como parte da vida. Até conversa com ela, às vezes. Idiota. Ainda acha que um dia as flores haverão de desabrochar e trazer uma primavera em seu coração. Não. Se outrora viveu um outono, hoje vive imerso no inverno. Frio, gélido, sem vida alguma.

- Claro, você acha que vai dar certo no fim? Vai-te à merda. Nada vai dar certo...

Mais uma noite está por vir. Mais paixões fugazes, amores descontrolados e desvairados. Ian sempre foi um Pierrot no carnaval da vida, e quando tinha a oportunidade de ser um Arlequim, vacilava. Amargo, demais. Sempre procurou alguém que lhe ensinasse o caminho para a tristeza. Mal sabe que seu coração é uma estrada sem fim até ela. Pobre Ian. Vai voltar a se iludir, vai voltar a escrever suas desilusões, vai voltar a chorar ouvindo Nick Drake e tendo um cigarro como único amigo. Tendo a garrafa de uísque como apoio moral. Ele ri. Sabe que nada vai mudar, e mesmo assim segue adiante. Certo, ele sabe que esse é o único caminho a seguir. Nunca teve escolha. E se teve, ignorou, prefere ser assim. Não para que os outros tenham dó dele, ao contrário, quer que os demais se explodam. Sabe que o caminho que escolheu não tem volta. Anda logo cara, há alguém te esperando na escadaria do prédio hoje a noite. É ela. Ela ainda te ama. E você, a ama? Cuidado, você ainda vai morrer disso...

- Ah, me deixa...


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Transtornos.

Acompanhamos nos últimos dias o seqüestro da jovem Eloá e de sua amiga Nayara por Lindemberg, crime motivado pelo fato do rapaz querer reatar o namoro com Eloá, e esta por sua vez ter recusado. O desfecho todos já sabem, Eloá morreu (não se sabe ainda se por tiros disparados por Lindemberg ou pela polícia) e Nayara foi atingida no rosto.


A Revista Isto É publicou uma matéria sobre Psicopatas. Como uma pessoa aparentemente normal é capaz de cometer crimes tão bárbaros? Psiquiatras dizem que 4% da população mundial (3% homens, 1% mulheres) sofre de psicopatia, termo para transtorno de personalidade antissocial, que pode aparecer de uma hora para outra. Colocando essa proporção no Brasil, 1 entre 25 brasileiros se enquadra nesse perfil. Os casos se definem do grau mais leve até o mais grave, como assassinatos e grandes golpes financeiros. As maiores características de um psicopata são: egocentrismo, ausência de culpa, frieza, charme e simpatia.

Testes realizados com psicopatas revelaram que o sistema límbico deles não sofreu nenhum tipo de alteração quando foram mescladas imagens de beleza e de tragédias. Em seres humanos 'normais' o sistema entra em ebulição ao ver cenas de horror, isso, porque, a repulsa é enorme. Psicopatas são tão geniosos que conseguem enganar um detector de mentiras. Sabem extamente o que estão fazendo e mentem com naturalidade.

Especialistas dizem que psicopatas nascem psicopatas. E, como diz a reportagem, vários fatores do dia-a-dia contribuem para que o psicopata aja sem problema algum. Um deles é a impunidade. Ele sabe que as leis são falhas e abrem brechas para que ele não seja punido de acordo com o seu crime.

Um relato impressionante é o do livro O Iluminado de Stephen King, adaptado aos cimenas por Stanley Kubrick e lançado no ano de 1980. Jack Torrance (Jack Nicholson) é um pai de família desempregado, escritor fracassado e alcoólatra que vai parar em um hotel com sua esposa e filho para ser zelador durante um rigoroso inverno. O aspecto solitário do hotel e a sua imensidão fazem com que Torrance desenvolva a Síndrome da Cabana, algo que ocorre quando pessoas que vivem enclausuradas por muito tempo desenvolvam e se rebelem entre si. O filme já se aprofunda em casos como reencarnação, visões e algo que já foge um pouco da proposta desse tópico.


Here's Johnny!

Preste muita atenção, se você observar 24 pessoas que você se relaciona, e nenhuma delas apresentar nenhum grau de psicopatia, fique esperto, o 'doido' pode ser você! hahaha.

Transtornos mentais são realmente sérios e devem ser estudados e tratados com o máximo de atenção. É cruel ver pessoas que sofrem de esquizofrenia, TOC, transtorno bipolar de humor, depressão etc.

Até a próxima.

E vão com cuidado.



Notas:

Sistema límbico: é a unidade responsável pelas emoções.

O post foi escrito ao som de Ghosts I-IV do Nine Inch Nails, disco mais do que apropriado ao tema discutido.