quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O encontro.

Vingança.

Ele sente que nasceu para matar. Não literalmente. Renasceu para matar. Começa a relembrar de toda sua vida inútil, a infância perdida, os amigos da escola que o maltratavam, a adolescência promissora que acabaria se tornando em uma vida adulta sem sentido algum. Amola seu machado e se lembra. Abre as gavetas e revê sua coleção de armas brancas. Facas, machados... Olha para as espadas penduradas na parede. Ele se sente como um guerreiro sem honra, a morte espera por todos. Só que dessa vez, a morte virá para outros. Abre seu caderno de anotações e lê os nomes de todos aqueles que um dia lhe fizeram mal, que um dia lhe fizeram acreditar que era um merda, um zero à esquerda. Todos os problemas que teve quando criança e as chacotas, piadas idiotas.

- Sim, é chegada a hora. Só tenho de terminar alguns detalhes, e sair para caçar. Logo mais, tudo estará escuro como essa noite.

Prende em seu casaco algumas facas, dois pequenos machados, e coloca nas costas a bainha com a espada. Tudo planejado para a sua diversão. Olha através da janela, está chovendo, o tempo frio parece não ajudar. Desce as escadas e sai para a rua, sair a procura do primeiro alvo.

Caminhando sob a tempestade que castiga a cidade, ele encontra um mendigo.

- Olá meu senhor, poderia me dar uma moeda para ajudar a matar minha fome?

- E quem me garante que você não vai beber com a grana que eu te der?

- Tudo bem, vou lhe ser sincero. Peço para beber, não sinto vergonha.

- Sem problemas. Pela sua sinceridade, merece até duas moedas. Afinal, você precisa se aquecer.

- Muito obrigado, meu senhor. Só lhe dou um conselho: vá com muito cuidado.

Ele se vira e não entende muito bem o que o mendigo lhe dissera. Será que ele sabia de seus planos, ou... Não, nada demais. Está começando a ficar paranóico. Não pode deixar a loucura tomar conta de si, antes de ficar louco de verdade.

Atravessa a rua e se aproxima do seu primeiro destino. Tiago. O cara dois anos mais velho do que ele, e que vivia se divertindo com seus problemas de saúde. - 'Maldito.' - Só consegue pensar nisso. Ele pula o muro e olha pela janela, Tiago está dormindo com sua esposa. Olha para o lado e vê que há crianças dormindo em outro quarto.

- Ninguém sai vivo.

Ele ri sarcasticamente, e já planeja como vai atacar um por um. Consegue destrancar a porta dos fundos, e entra devagar pela cozinha. Olha para o relógio na parede: 00h00. Vai até a sala, nota que há uma coleção de bebidas em um mini bar, pensa no que poderia fazer depois. Ele se vira para o quarto das crianças, tão frágeis, inocentes, puras... mas que um dia haverão de propagar a maldade pelo mundo. Carrega as duas pelo colo, o sono é tão profundo que ele nem se preocupa. Ele as coloca deitadas no sofá, cobre seus rostos com travesseiros e lhes aplica golpes de machado no pescoço. O sangue escorre, encharca o tapete da sala, ele olha para os corpos tristes e brancos que desfaleceram sem um grito. Não há tempo para voltar.

- O que faço agora? Sim, vou pegar uma dose de bourbon com gelo e me sentar por aqui. Já sei, vou pendurar as cabeças das crianças na porta do quarto delas. Assim, quando o filho da puta acordar, vai sentir a maior dor de sua vida.

Ele esvazia o copo, se dirige ao sofá ensanguentado, pega as duas cabeças e as arrasta pelo corredor. Vai à cozinha e encontra fitas adesivas, as pega e volta para o quarto.

- Sim, agora sim... Pronto! Olha que coisa linda. Dois rostos sem vida, pálidos, secos. Secos como a minha alma.

Ele volta para a sala, pensa no que vai fazer. Então decide bater à porta do quarto de Tiago. Toc toc. A esposa sai, e mal tem tempo de reconhecer as filhas mortas penduradas na porta. Agora uma faca se encontra em seu coração. Rápido, eficiente. Ele vê que seu amigo ainda não acordou. Pega o corpo da mulher e o coloca junto às cabeças das crianças. Ele vai até Tiago, o observa, se lembra de tudo o que o desgraçado lhe fez quando criança. Resolve agir. Vai até a cozinha e pega um pedaço de pano, volta para o quarto, ao mesmo tempo enfia o pano na boca de Tiago, e lhe desfere uma facada no ombro. Tiago desperta como quem cai de um prédio, um misto de medo e dor. Olha e vê seu amigo de infância com os olhos vermelhos, refletindo o sangue que jorra de seu ombro. O rapaz tira a mordaça da boca dele e resolve conversar.

- Olá Tiago, se lembra de mim?

- Filho da puta! Que porra é essa? Meu ombro, seu desgraçado! Cadê minha esposa? O que você fez com ela?

- Calma, ela está segura, assim como suas fihas... Seu ombro dói? É apenas o começo. Minha alma tem doído por anos...

- Seu maluco! Você sempre foi maluco! Desde que te conheci, você nunca se deu bem com ninguém, ficava isolado no seu canto, com seus pensamentos de retardado.

- Errado, meu velho amigo. Você e todo o pessoal da escola e do ônibus é que me isolavam com suas piadinhas infames, mas sabiam o que estavam criando. Agora chegou minha vez. Talvez o que você esteja recebendo não signifique um décimo do que sofri nesses anos, mas garanto que irá sofrer muito, assim como o resto do pessoal da época.

- Quê? O que você pretende fazer? Vai se vingar de todo mundo? Se vingar do quê? Era um fraco e não se adaptava! Mas quero saber onde estão minhas... Meu Deus! O que você fez a elas? Seu...

- Desculpe, você acha que só sua morte seria o suficiente para que eu me vingasse de você? Se enganou, otário. Uma pena, sempre se achou o esperto do ônibus, mas não passa de um idiota...

Tiago se levanta e vai até o corpo de sua esposa, e se choca ao ver de perto as cabeças de suas duas crianças. Cai ao chão em desespero. Chora amargamente e se arrepende por tudo o que fez de ruim. Se levanta em um acesso de raiva e tenta atacar seu velho amigo. Em vão. Leva outra facada, no joelho direito dessa vez. Cai, como quem não consegue se equilibrar. Chora de dor e raiva. Impotente, sabe que vai morrer.

- Vai, me mata logo, se é isso que você deseja.

- Calma, muita calma... Pra quê a pressa? Vocês ficaram me matando por anos, o que são minutos, comparados com aquilo? Se espera que eu alivie sua dor, está enganado. Eu ainda estou pensando no que vou fazer com você.

- Desgraçado! Você matou minhas filhas e minha esposa! O que mais quer de mim? Quer me ver sofrer? Acha que isso vai te fazer uma pessoa melhor? Acha que isso vai apagar a dor que sente e carregou por todos esses anos?

- Não, a dor está desaparecendo, o que vem, é apenas a calma. Sinto-me tranquilo. Sua morte é questão de tempo. Antes do sol raiar. Aliás, você tem escada por aí? Acabei de ter uma idéia.

Ele vai até Tiago e lhe esfaqueia o outro joelho, impedindo-o assim de andar, como meio de precaução. Vai até a varanda e encontra o que procura. Volta calmamente para o quarto e a abre, bem no centro.

- O que você vai fazer com isso?

- Tá com medo? Você vai ver...

- Nããão.... Nããããããããoooooooo!

O sangue jorra novamente nas paredes. Ele corta os pulsos de Tiago e o joga nos ombros. Tiago desmaia de tanta dor.

- Mais fácil assim, não quero ninguém se debatendo e me atrapalhando.

Ele pega a mão esquerda do rapaz e a encosta no teto, crava uma faca nela.

Tiago acorda assustado e gritando, sem saber o que acontece. Mais uma. A sua mão direita também é cravada no teto. O rosto de Tiago é a reprodução da dor, do desespero, do medo. Suas pernas são esticadas e juntas. Outra faca, só que dessa vez atravessando seus pés e encontrando o teto. De certa maneira, ele fôra crucificado. Já não grita mais. A dor é imensa, a ponto de não sentir mais nada. O quarto está cheio de sangue. Ele olha bem nos olhos de seu velho amigo e pergunta:

- Por quê?

- Porque eu quis assim. Dê um oi ao Diabo por mim. Vou te poupar, acabou.

Ele crava mais duas facas na cintura de Tiago para o corpo não cair, e em seguida rasga sua barriga. Os órgãos caem sobre o chão: intestinos, estômago, fígado, pâncreas, rins...

Tiago morre de olhos abertos, como quem não acredita no que está acontecendo.

- Menos um. Agora me restam três. Eles têm de saber que eu voltei. Tenho de planejar o resto, crucificar Tiago até que foi legal. Ah, preciso de outra dose de bourbon antes de partir. A noite é longa e a chuva está cada vez pior.

Continua...